Pra comentar sobre o filme, peço, caso você não tenham visto, que vai ter spoilers dele. Melhor, vão assistir o filme e depois voltem aqui. Porque o filme é bom, e vale a pena. Pra quem diz que cinema nacional só tem violência e sexo esse é diferente. Só tem violência. E como muitos filmes brasileiros que deixam de ser assistidos exatamente por serem nacionais (porque, olha só, cinema de crítica é o cinema europeu… NOT). Tropa de Elite 2 continua na esteira do primeiro, mas vai além na discussão das bases da corrupção e violência. Isso foi que eu achei o melhor.
Agora que cap. Nascimento faz parte do governo, ele decide desarticular as ações do tráfico na favela. Tudo isso na base de ações surpresas nas comunidades que muitas vezes acabam na morte dos traficantes. Sua operação tem sucesso, mas ocorre algo com quem ele não contava. As favelas começam a ser controladas por milícias que tem como líderes policiais corruptos. Esses policiais, como bons comerciantes, primeiro aterrorizam para depois venderem seus serviços à comunidade. Junte a isso um militante de esquerda que é desafeto do Nascimento, um âncora de programa mundo cão e um monte de policial corrupto e está feita a festa.
O filme se propõe de certa forma, a analisar as bases da corrupção, terminando sua tese, que não é discutida no filme, em Brasília. Na verdade, vemos um jogo de interesses entre os milicianos e os políticos. Ambos trabalham de mãos dadas. A milícia “pacifica” a favela dando votos aos políticos, enquanto estes fecham os olhos para a corrupção da milícia. Lógico que a violência é um componente fundamental nesse sistema.
O final mostra uma CPI, onde o capitão Nascimento é convidado a depor. Em suas palavras ele diz claramente que a pior quadrilha está sentada diante dele ouvindo seu depoimento.
Assistam ao filme com criticidade, pensem sobre ele e não façam como o boyzinho sentado ao meu lado no cinema. Só vibrava com a violência e defendia com pra namorada (que estava tentando dormir) a tese de que bandido bom é bandido morto
Não podia deixar de falar, dia 31 está chegando boys and girls. É o dia da votação para o segundo turno. Pensem bem sobre suas escolhas e lembrem-se: Pokebola vai!
Rômulo Cristaldo
outubro 26, 2010
Bem,
Eu vejo em “tropa de elite 2″ não uma simples continuação do primeiro em termos cinematográficos, mas a continuidade de transformação de um discurso sobre segurança pública no Brasil. Como se diz em psicologia, o segundo fecha a Gestalt.
Enquanto que o primeiro filme focou no embate dia-a-dia de bandidos contra mocinhos, e em como esta disputa leva ambos os lados a convergirem em termos de modus operandi. Tanto o é que a mensagem principal no “tropa de elite” (agora 1) não é exatamente o chavão “bandido bom é bandido morto”, mas sim: as medidas necessárias para combater a violência é a violência; o que torna indistingüíveis criminosos e policiais.
De certa forma o primeiro filme endossa a tese nietzschiana de que devemos tomar cuidado ao olhar para o abismo, pois quando fazemos o abismo olha para nós – como se a polícia, ao combater monstros, tivesse tornado ela mesma um monstro. Mas, claramente um monstro a serviço do bem na película.
Tropa de elite 2 parece mostrar desdobramentos da tese nietzschiana: (1) a polícia primeiro tenta combater a criminalidade sendo tão ou mais violenta que os criminosos; mas não só isto, como (2) ela mesmo torna-se a tal ponto currupta e criminosa que muda de lado, e passa a disputar espaços de exercício da criminalidade.
De uma maneira, o segundo filme resgata a honra do “intelectual de esquerda”, que no primeiro aparece como alienado por não perceber que o homem seria naturalmente mal. No segundo este intelectual emerge como único capaz de compreender a real implicação e amplitude da maldade humana – seja ela natural ou não. E mais, é esta figura que tem coragem de enfrentar o “sistema”.
Mas, por outro lado, ressurge o maniqueísmo. A concepção do papel da milícia, e como esta combate os traficantes, leva a separar muito nitidamente quem é “do mal” e quem é “do bem”. Se no primeiro mal e bem estavam tão mesclados que eram indiferenciáveis, no segundo a tragédia familiar e os idéais progressistas emergem como a síntese do que é bom. O mau é a mílícia e os traficantes que se interpõem entre os cidadãos e a felicidade possível. A corrupção, em seu sentido político e filosófico, ´é “o mal”. E isto é claramente delimitado quando se percebe a real natureza da milícia enquanto máfia que expulsa traficantes para instaurar um regime de obscena promiscuidade com a política – como se o próprio tráfico não tivesse seus representantes legais.
A corrupção, a violência e a volúpia são então colocadas no seu devido lugar, no “lado negro da força”. Nosso anti-herói, o Capitão Nascimento, se redime de todas as falas politicamente incorretas do primeiro filme ao declarar, no final, que a polícia tem que acabar – o processo de catarse e reconstrução do herói se torna completo. E isto se dá graças a um fator, que não é necessariamente material mas idealístico: é a razão quem resgata Nascimento, a razão no sentido da real iluminação, da percepção da verdade.
Para redimir o herói, o indivíduo, o filme condena a sociedade. E a razão é elevada à condição única de transformadora moral e ética. Mas uma razão kantiana, individual e contra a opressão do coletivo.
Além disto o filme, apesar de denunciar a corrupção da política, da polícia e das milícias em conluio para se manterem no poder, não vai ao cerne da questão. Um certo momento afirma que cada indivíduo “defende o seu”, mas perece relegar isto a um inato instinto de auto-preservação egoísta. Ou seja, reafirma a tese capitalista de que os homens são naturalmente utilitaristas, e que portanto a origem da corrupção são disfunções que, se resolvidas pela lei e pela razão, podem levar o sistema à normalidade.
No fundo, o filme endossa as práticas que dão origem a corrupção, pois têm medo de criticá-las. Não levanta o fato de que homens não são naturalmente egoístas. E, portanto, perde a oportunidade de apontar o cerne da questão da corrupção: o Estado é corrupto porque o poder desproporcional dos indivíduos advêm da posse desproporcional de Capital; logo, capitalistas usam o sistema para endossar seu monopólio dos meios de produção.
Ao final temos um filme crítico, mas até certo ponto. A tese equivocada da “plot” mais endossa o “sistema” do que oferece possibilidades de superá-lo.
Porém, não deixa de ser um excelente choque de realidade se for compreendido em suas limitações. Obviamente que uma película tem que contar uma história, e um único ponto de vista dela sobrevive e elimna os demais. As próprias limitações do veículo cerceam a possibilidade crítica do filme. Sabendo disto, é possível apreciá-lo graças à sua quase-perfeição na forma e na linguagem, o que permite que deixemos de lado o próprio veículo e nos concentremos nas idéias que ele levanta.
Falando sobre ambos os filmes, que vejo como um só em dois capítulos, é preciso dizer que se fossem puramente ficcionais já seria impressionante. Mas no caso as semelhanças com a realidade carioca não são mera coincidência.
Acho que é mais que um mero filme, é um relato dos nossos piores temores. E o pior deles é que estes temores são a realidade na qual vivemos.
Abraços,
Rômulo
ps: Talvez não seja mirando o abismo que nos tornamos monstros como defende Nietzsche. Talvez o abismo seja nós mesmos e olhando para fora, olhamos na verdade para um espelho que não aceitamos de pronto por medo de assumir. O “intelectual de esquerda” é o que queremos ser, mas que não temos coragem de pagar o preço por: e o preço é a negação do erro em nossas existências. O capitão talvez seja é a força repressora que tenta tornar milicianos em gente, e estes últimos, os instintos mais profundos reprimidos por nossa autocomiseração. Ou não, como diria Caê… rs…