Então, todo esse tempo sem aparecer teve um motivo sério e muito legal. Passei 18 dias num estágio de vivência em áreas de reforma agrária. Apertando a tecla SAP, quer dizer que passei esses dias todos em contato com a organização do movimento sem-terra. Nós, mais de cem estudantes de todo Brasil, discutimos reforma agrária, capitalismo, gênero e a própria organização do movimento e passamos dez desses dezoito dias morando num assentamento, sendo adotados por famílias assentadas. Dessa experiência só posso dizer eu foi maravilhosa e que creio que todos que desejam um mundo diferente deste no qual vivemos deveriam passar por ela.
Não é só a possibilidade de viver o dia-a-dia de alguém que vive da terra, é a possibilidade de viver uma vida muito diferente da nossa. É reprogramar suas idéias a respeito de um movimento que vai contra um dos conceitos que temos mais arraigados que é o da propriedade privada. É legitimo para alguém que não tem onde morar, o que comer ou qualquer perspectiva de vida invadir o que é de outrem. Porque essa é muito claramente a questão. Existem pessoas que tem certos bens em excesso. Digo bens físicos. E existe gente que não tem nada. Se você não tivesse nada você tomaria o que é dos outros?
E se você passasse a acreditar que não existe isso de algo ser dos outros? Que o acumulo que um certo alguém tem de algum determinado bem não é legítimo? É legitimo acumular algo a custa de explorar outrem? A questão da propriedade privada vai muito além da ascensão do capitalismo como modo de produção e por ser tão antiga foi algo naturalizado por nós. Cremos firmemente que se alguém pagou ou herdou alguma coisa isso é desse individuo e não pode ser tirada dele. É fruto do seu trabalho ou do trabalho de seus ancestrais, é seu direito, sua posse.
Recomendo firmemente para aqueles que querem se aprofundar nessa questão a leitura do livro A origem da família, da propriedade privada e do Estado de Friedrich Engels. Engels destrincha muito claramente como essas instituições são construções históricas e não algo natural ao ser humano, uma coisa que já nasceu com ele. A propriedade privada serve claramente para a sujeição de muitos sob o poderio de poucos. Para privar e alienar o ser humano daquilo que ele realmente é. Ao longo do tempo essa situação foi se solidificando cada fez mais e se acirrou sobremaneira no capitalismo. O capitalismo precisa da propriedade privada. Ele necessita que aqueles que têm a propriedade dos bens oprimam aqueles que não têm esses mesmos bens. Esses que não tem bens precisam se sujeitar àqueles que os têm vendendo a única coisa que eles possuem, eles mesmos.
A questão da terra fala muito fortemente a isso porque a terra é à base de tudo. É de lá que se tiram as matérias-primas necessárias a toda essa tecnologia que nos rodeia. E ela está nas mãos de pouquíssimos, especialmente no Brasil que não fez em toda sua história nenhum tipo de reforma agrária.
Não sei a vocês, mas toda essa situação me dá muito que pensar. Creio que vivemos numa sociedade antinatural. É apenas o que tenho a dizer. Gostaria eu que cada um tirasse suas próprias conclusões a respeito da sociedade atual e que se construiu sobre séculos de alienação. Esse texto é estranho até a mim. Não tem nenhuma brincadeirinha, nenhuma piadinha, nem pareço eu. Mas é porque não há o que se brincar a respeito desse assunto, existe uma massa de pessoas que necessita que essa sociedade seja revista urgentemente. Quando puder escreverei mais a respeito da experiência de viver num assentamento. Até mais
*Verso de um dos gritos de ordem do MST
Publicado em fevereiro 1, 2011 porJuliana Bastos
0