Mulher, gênero e organizações

Publicado em novembro 28, 2011 por

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A mulher de hoje não é a mulher de ontem. Esta mulher do passado foi submissa, “do lar”, preocupada com a maternidade e era constantemente coagida a assumir exclusivamente o papel de esposa. Hoje em dia o “sexo frágil”, apesar de ainda manter tais importantes e difíceis atividades, tem sido muito mais. Ela se tornou independente, tem se preparado para ser um profissional num mercado competitivo, saiu da sombra de um marido para assumir a chefia dos lares bem como posições de destaque na sociedade, nas empresas e no governo. Uma nova mulher surgiu no seio de nossa sociedade e têm impactado de maneira inegável sobretudo o mundo organizacional.

Tais mudanças são decorrentes, antes de tudo, das profundas transformações ocorridas no mercado de trabalho durante o século XX. Com o intuito de alargar os números do exército industrial de reserva – instrumento que serve para pressionar trabalhadores a manter controladas suas demandas por maiores salários – o Capital iniciou o debate, financiou intelectuais e apoiou o feminismo em sua luta pela libertação das mulheres. O mercado de trabalho se abriu para o mundo feminino se constituindo como um símbolo da libertação do julgo masculino, mas também tem se firmado como a marca de uma nova dominação.

Estas mudanças trouxeram consequências nos âmbitos familiar, econômico, profissional, entre muitos outros. Surgiram e se disseminaram fenômenos como a família constituída por uma pessoa apenas, a família unipessoal, muitas vezes composta por uma mulher a qual precisou abrir mão de iniciar uma família em função da vida profissional. Quando num núcleo familiar tradicional, o salário da mulher passou a fazer parte do orçamento doméstico deixando de ser uma mera opção para se firmar como uma necessidade para a grande maioria dos casais. No âmbito profissional tem se visto um avanço significativo da presença das mulheres em cargos de decisão, universidades e mesmo na representação política das principais nações mundiais.

Nomes como os de Angela Merkel (Premier alemã), Dilma Rousseff (Presidente do Brasil), Christine Lagarde (Diretora Gerente do FMI), Condoleezza Rice (ex-secretária de Estado dos EUA), Hillary Clinton (atual secretária de Estado dos EUA), Cristina Kirchner (Presidente da Argentina), comprovam empiricamente que o dantes considerado “sexo frágil” pode ocupar cargos à dianteira de nossa sociedade e fazer um excelente trabalho. Nas organizações empresariais, públicas e instituições da sociedade civil elas também estão galgando posições de destaque, do mesmo modo que têm se apropriado de funções que a sociedade tradicionalmente considera “masculinas”. Posições até então vistas como reduto exclusivo de homens, como na Polícia, na Construção Civil, ou na condução de Transporte Coletivo Urbano, gradativamente vêm sendo pleiteadas e ocupadas por mulheres.

No entanto, apesar dos avanços no que diz respeito ao equilíbrio de oportunidades para homens e mulheres, ainda existem barreiras a serem transpostas – inclusive no mercado de trabalho. A opinião da mulher ainda ecoa pouco na organização, sobretudo quando esta se encontra num reduto ainda dominado por uma maioria masculina. O olhar feminino sobre a realidade – considerados mais detalhista e emotivo – ainda não é a regra no mundo da empresa: tanto que as mulheres que galgam os mais altos espaços ainda o fazem assumindo para si padrões masculinos de gestão. Em termos salariais, as mulheres ainda recebem menos relativa e absolutamente.

O mundo feminino conquistou significativos espaços, isto graças a um enorme esforço por parte de ativistas e intelectuais – bem como, e talvez principalmente, graças a aquelas mulheres que o fazem em sua praxe diária na busca pela sobrevivência. É preciso que a sociedade, as organizações, passem não somente a incorporar as mulheres em seus quadros e instâncias decisórias de maneira quantitativa, mas qualitativamente. Ou seja, necessário se faz não somente o aumento do número de seres humanos do gênero feminino nas organizações e posições de destaque, mas principalmente que estas organizações, estes grupos sociais, se permitam diluir o modus operandi masculino na feminilidade.

Assim talvez possamos construir um mundo verdadeiramente equânime, não através do crescimento dos números de participação, mas da transformação qualitativa e estrutural das formas de representação de gênero que são dominantes.

Publicado em: Crítica Social