A mulher de hoje não é a mulher de ontem. Esta mulher do passado foi submissa, “do lar”, preocupada com a maternidade e era constantemente coagida a assumir exclusivamente o papel de esposa. Hoje em dia o “sexo frágil”, apesar de ainda manter tais importantes e difíceis atividades, tem sido muito mais. Ela se tornou independente, tem se preparado para ser um profissional num mercado competitivo, saiu da sombra de um marido para assumir a chefia dos lares bem como posições de destaque na sociedade, nas empresas e no governo. Uma nova mulher surgiu no seio de nossa sociedade e têm impactado de maneira inegável sobretudo o mundo organizacional.
Tais mudanças são decorrentes, antes de tudo, das profundas transformações ocorridas no mercado de trabalho durante o século XX. Com o intuito de alargar os números do exército industrial de reserva – instrumento que serve para pressionar trabalhadores a manter controladas suas demandas por maiores salários – o Capital iniciou o debate, financiou intelectuais e apoiou o feminismo em sua luta pela libertação das mulheres. O mercado de trabalho se abriu para o mundo feminino se constituindo como um símbolo da libertação do julgo masculino, mas também tem se firmado como a marca de uma nova dominação.
Estas mudanças trouxeram consequências nos âmbitos familiar, econômico, profissional, entre muitos outros. Surgiram e se disseminaram fenômenos como a família constituída por uma pessoa apenas, a família unipessoal, muitas vezes composta por uma mulher a qual precisou abrir mão de iniciar uma família em função da vida profissional. Quando num núcleo familiar tradicional, o salário da mulher passou a fazer parte do orçamento doméstico deixando de ser uma mera opção para se firmar como uma necessidade para a grande maioria dos casais. No âmbito profissional tem se visto um avanço significativo da presença das mulheres em cargos de decisão, universidades e mesmo na representação política das principais nações mundiais.
Nomes como os de Angela Merkel (Premier alemã), Dilma Rousseff (Presidente do Brasil), Christine Lagarde (Diretora Gerente do FMI), Condoleezza Rice (ex-secretária de Estado dos EUA), Hillary Clinton (atual secretária de Estado dos EUA), Cristina Kirchner (Presidente da Argentina), comprovam empiricamente que o dantes considerado “sexo frágil” pode ocupar cargos à dianteira de nossa sociedade e fazer um excelente trabalho. Nas organizações empresariais, públicas e instituições da sociedade civil elas também estão galgando posições de destaque, do mesmo modo que têm se apropriado de funções que a sociedade tradicionalmente considera “masculinas”. Posições até então vistas como reduto exclusivo de homens, como na Polícia, na Construção Civil, ou na condução de Transporte Coletivo Urbano, gradativamente vêm sendo pleiteadas e ocupadas por mulheres.
No entanto, apesar dos avanços no que diz respeito ao equilíbrio de oportunidades para homens e mulheres, ainda existem barreiras a serem transpostas – inclusive no mercado de trabalho. A opinião da mulher ainda ecoa pouco na organização, sobretudo quando esta se encontra num reduto ainda dominado por uma maioria masculina. O olhar feminino sobre a realidade – considerados mais detalhista e emotivo – ainda não é a regra no mundo da empresa: tanto que as mulheres que galgam os mais altos espaços ainda o fazem assumindo para si padrões masculinos de gestão. Em termos salariais, as mulheres ainda recebem menos relativa e absolutamente.
O mundo feminino conquistou significativos espaços, isto graças a um enorme esforço por parte de ativistas e intelectuais – bem como, e talvez principalmente, graças a aquelas mulheres que o fazem em sua praxe diária na busca pela sobrevivência. É preciso que a sociedade, as organizações, passem não somente a incorporar as mulheres em seus quadros e instâncias decisórias de maneira quantitativa, mas qualitativamente. Ou seja, necessário se faz não somente o aumento do número de seres humanos do gênero feminino nas organizações e posições de destaque, mas principalmente que estas organizações, estes grupos sociais, se permitam diluir o modus operandi masculino na feminilidade.
Assim talvez possamos construir um mundo verdadeiramente equânime, não através do crescimento dos números de participação, mas da transformação qualitativa e estrutural das formas de representação de gênero que são dominantes.
Rômulo Cristaldo
novembro 28, 2011
Este texto é resultado do trabalho coletivo da turma de Tópicos Avançados em Administração (Unime, Lauro de Freitas), mediados por mim em sala de aula (tb fiz os ajustes finais do texto). Créditos compartilhados com Adeniran Barbosa, Thalita Aguiar, Edmundo Silva, Bittencourt Eduardo, Eder Cavalcante Braga e MUITOS outros.
Edmundo
novembro 28, 2011
Ficou muito bom, os ajustes finais enriqueceram muito o texto, bela contribuição Rômulo.